USINA DE ARTE JOÃO DONATO – ENCONTRO COM O PASSADO

Maurice Capovilla

Quando designamos a Usina de Arte João Donato como uma escola
múltipla de arte precisamos voltar no tempo para descobrir que
estamos seguindo os passos do grande educador brasileiro Anísio
Teixeira quando ele funda, em 1935, a Universidade do Distrito Federal
e no seio dela, o Instituto de Artes.
A Universidade do Distrito Federal criada por Anísio Teixeira no Rio
de Janeiro, vinha complementar a fundação da Universidade de
São Paulo em 1934 e responder aos anseios de modernidade dos
intelectuais e educadores, partidários do que se chamou Escola Nova,
no rastro da Semana de Arte Moderna de 22. A tese em pauta era
encontrar um formato novo para a educação que pudesse convir com
os novos tempos e o debate era um contraponto com os responsáveis
pela educação na época, influenciados pelo positivismo e que eram
contrários à ideia de universidades consideradas elitizantes e geradoras
de um saber ornamental.
Anísio estrutura a UDF no sentido de agregar as áreas do conhecimento
científico e humanístico e as práticas de formação, a começar pelo
magistério, com a criação do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO, responsável
pelo desenvolvimento de uma cultura pedagógica nacional, a ESCOLA DE
CIÊNCIAS, responsável pela formação de especialistas e pesquisadores,
a ESCOLA DE ECONOMIA E DIREITO, responsável pela formulação de
estudos sobre organização econômica e social, a ESCOLA DE FILOSOFIA
E LETRAS, responsável pela realização de estudos superiores do
pensamento e sua história e por fim o INSTITUTO DE ARTES, responsável
pelo desenvolvimento das artes e irradiação de suas tendências. No
entorno dessa estrutura vinham instituições complementares de
experimentação pedagógica, práticas de ensino, pesquisa e difusão da
cultura, a Biblioteca Central da Educação e um conjunto de Escolas, a
saber: a Técnica, de Rádio, Secundária, Elementar, Jardim de Infância,
Maternal Experimental, Clinicas de Hospitais, dentre outras.
O Instituto de Artes é uma inovação que surge da inspiração de Anísio
Teixeira e só pode ser reflexo da Semana de Arte Moderna de 22,
estopim do movimento transformador da cultura brasileira.

No artigo do Decreto que cria a UDF e que se refere à definição da
finalidade do Instituto de Artes consta:
“ O IA tem por fim concorrer para o estudo do desenvolvimento das
artes em seus vários ramos e será organizado de modo a constituir-se
como centro de documentação e irradiação das tendências de expressão
artística da vida brasileira”.
A ideia fundamental do Instituto, revolucionário em sua concepção
e métodos, era cultivar o espírito criador e atrair para o seu meio os
intelectuais mais avançados e os artistas mais ativos do país. Dentre
eles se destacavam Lúcio Costa, Cândido Portinari, Heitor Villa-Lobos,
Lorenzo Fernandes, Josué de Castro, Sérgio Buarque de Holanda, Mário
de Andrade, Cecília Meirelles, Gilberto Freire, Hermes Lima, dentre
outros. Além do mais o IA partia do princípio de que as artes eram
componentes fundamentais do processo da educação, fazendo parte
das cinco áreas de formação que constituíam a UDF. Para tanto basta
ver a atualidade do foco do IA quando coloca como premissa básica o
seguinte:
“ O Instituto de Artes, estendendo progressivamente sua atuação sobre
todas as artes puras e aplicadas, promove os estudos tendentes ao
aperfeiçoamento das técnicas e à formação dos profissionais reclamados
pelas necessidades sociais e econômicas, cabendo-lhe, pois: “ e aí
seguem os itens de uma grade curricular que abrange todas as áreas
artísticas, a saber:
cursos de filosofia e história da arte, música, geral e aplicada, teatro e
dramaturgia, arquitetura e urbanismo, desenho e pintura, escultura,
artes aplicadas, arte cinematográfica, coreografia e dança, arte de
indumentária etc.
A Universidade do Distrito Federal , criada por Anísio Teixeira em 1935
abrigou a primeira escola múltipla de artes do país. Em 1939 foi fechada
por Gustavo Capanema, Ministro da Educação do Estado Novo.
O Instituto de Artes da UDF foi um marco na história da educação
artística brasileira e serviu de matriz para a criação da UnB e do ICA
– Instituto Central de Artes – com Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e a
participação de Anísio Teixeira, então reitor da Universidade até 1963.

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