ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que fazer com elas? VI capítulo

 No VI capítulo, Maurice Capovilla, nos apresenta uma experiência fantástica que estava dando certo e que infelizmente veio a ser interrompida.

 

 Por Maurice Capovilla

VI.  O DRAGÃO DO MAR

                                          

                       Nostalgia sepultada

                        1996-99

                       O Dragão do Mar foi a última tentativa de implantar no Nordeste uma escola inspirada nas ideias de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. O Brasil, mais uma vez, perdeu mais um bonde na história.                                        

 O Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual do Ceará durou, conforme foi inicialmente concebido, três anos. Tempo mais do que suficiente para testar algumas ideias que fomos recolhendo durante os últimos trinta e tantos anos. Não foi um produto acabado nem chegou a se consolidar, pois estava em processo de ajuste e aperfeiçoamento.

O Dragão surge, num primeiro momento, como um agente transformador de uma realidade regional e com a finalidade de preparar com eficiência os criadores de um mundo novo e expandir para muitos, o conhecimento das artes, das técnicas e dos ofícios indispensáveis à vida humana no ano 2.000.

Para levar avante essa utópica meta, de conformidade com a vontade política do então Secretário de Cultura Paulo Linhares, definiu-se o Dragão como uma “escola múltipla de artes”, inserida no contexto geopolítico de um mundo bipartido entre globalismos e regionalismos, entre sistemas transnacionais de poder militar, político e econômico e regimes de países e estados periféricos que lutam para preservar a nacionalidade, a cultura e a identidade de seus povos. Um mundo cuja marca registrada de sobrevivência será a competência e a conformidade das raízes históricas e culturais com os meios mais sofisticados de informação e comunicação.

Implanta-se então a escola a partir de um Centro de Dramaturgia, sob a direção de Orlando Senna, com duração prevista de dois anos enquanto formatam-se os projetos de um Centro de Estudos Básicos e dos Centros de Produção Audiovisual e de Design nos moldes da qualificação massiva e ao mesmo tempo especializada, para formar o técnico e o artista, num quadro estatístico de resultados relevantes.

No âmbito do Centro de Estudos Básicos foram oferecidas, em três anos, 19.500 vagas, realizados 185 cursos de formação, atendidos 40 municípios, certificados 6.500 alunos e capacitados 1.500 cidadãos de todas as classes sociais e que passam a exercer funções técnicas e artísticas nas diversas áreas da indústria cultural do Ceará.

Paralelamente a isso, os Centros de Dramaturgia, Produção Audiovisual e Design, com cursos de dois anos, formaram dramaturgos, roteiristas, diretores de teatro, diretores de cinema e televisão, atores, atrizes, coreógrafos, dançarinos, designers, cenógrafos, figurinistas, artistas plásticos, decoradores, fotógrafos, diretores de som, editores de cinema e televisão, produtores, animadores culturais, enfim, uma gama de profissionais que atuam nas áreas culturais do Ceará.

Essa escola revolucionária que não existia na realidade do Brasil tomou a forma cromática e multifacetada do corpo mítico de um dragão criado pelo artista plástico cearense Chico da Silva e que se tornou a síntese visual, ideológica e estética do Instituto Dragão do Mar.

Uma escola cujas disciplinas, não importa a área que pertençam, são consideradas expressões culturais encaradas na perspectiva de um diálogo permanente de cruzamento de experiências teóricas, técnicas, estéticas e de difusão.

Nesse sentido o Dragão investiu na sensibilidade do mestre que é ao mesmo tempo professor e artista, único visionário capaz de colar os cacos do grande vaso da sabedoria onde sempre estiveram presentes a poesia, dramaturgia, o teatro, a mímica, a música, a dança, as artes visuais contemporâneas, a fotografia, o cinema, o vídeo e a televisão, as novas tecnologias da imagem e do som e a cantoria do sertão, o bumba meu boi, a tradição oral e artesanal e todas as linguagens que formam a grande arte do nosso povo.

No conceito pedagógico do Dragão, a palavra chave é a “transdisciplinaridade”, que poderíamos traduzir por antilinearidade na troca de informação, ou mais simplesmente, “multidisciplinaridade”, mixagem, hibridismo e para ser anti-acadêmico, impureza na apropriação da técnica e da produção de obras de arte emancipadas e distanciadas de qualquer classificação histórica tradicional.

Para se chegar a esse estágio, foi necessário que as disciplinas se misturassem ao sabor das preferências e necessidades de alunos e professores, a partir de um projeto conceitual maduro e aprofundado e que teve como norma a liberdade de escolha de variadas formas do ver e do saber fazer, acompanhando e talvez, antecipando a evolução possível da expressão artística do próximo século.

Nesse espaço indivisível os estudantes produzem suas obras em dimensão real, prontas para a difusão, com a assistência de artistas e professores de renome nacional e internacional.

Por sua vez, os mestres artistas das diferentes disciplinas, também se obrigam a realizar, com os meios técnicos disponíveis, obras com a assistência dos alunos, na confluência de um intercâmbio antagônico, talvez competitivo, porém dinâmico na relação criadora entre as gerações.

A visualização do Dragão, nos termos propostos, é um chão de fábrica, ou mais precisamente, um ateliê, um estúdio, um palco, um laboratório, uma oficina, um centro de computação gráfica, enfim, o espaço físico do trabalho necessário para a configuração prática do   espaço intelectual  e virtual de pesquisa e busca das fontes da teoria e do saber.

Uma escola dessa forma concebida pressupõe a interação, em nível pedagógico, com o que se faz de arte no Brasil e no mundo, procura intercâmbio com alunos e professores de outros estados e países sem perder de vista os alicerces culturais e sociais sobre os quais está plantada.

Antes de tudo, o Dragão do Mar, homenagem ao herói libertário da escravidão no Brasil, foi uma experiência cearense, no momento da passagem do século onde se realiza a tese de escolas do primeiro e do terceiro mundo reunidas numa só, a partir da concepção de que é possível oferecer a qualquer indivíduo, não importa sua origem, classe social ou escolaridade, os instrumentos técnicos, estéticos e teóricos adequados para que sua expressão o qualifique como um cidadão. Enfim, uma oferta de aprendizado das artes que constituem meios fundamentais de comunicação entre os homens.

O Dragão do Mar, pela dimensão que assumiu, nesses três anos de atuação, cumpriu em grande parte as metas previstas em sua criação. Mobilizou tanto a sociedade de uma forma geral, quanto à cultura cearense de maneira específica, atuou sobre milhares de jovens ávidos de conhecimento e deixou com certeza a sua marca gravada na mente de quem passou sem querer, alguma vez, na frente de um evento qualquer, seja um filme, um quadro, uma peça de teatro, uma rede artesanal, uma moringa de barro, um boi de presépio, um verso rimado, um mamulengo esquisito, enfim, alguma coisas original e bem feita, que a partir do seu criador passou a ser um objeto com valor, para ser visto e assimilado, vendido e comprado, cumprindo, portanto sua missão de criar condições de trabalho e mercado para o artista.

Centro de debate, laboratório de pesquisa, oficina de trabalho, ponto de referência do ensino democrático da arte e da cultura no Brasil, o Dragão do Mar foi e deveria continuar sendo um processo de livre e permanente criação aberto aos cearenses e a todos os brasileiros.

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