NPDs participam do Projeto XPTA.LAB

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Foto NPD João Pessoa (PB).

A Paraíba está sendo pioneira num projeto que em breve será implantado na região nordeste, XPTA.LA PB foi contemplado no edital patrocinado pelo  Ministério da Cultura, por meio das Secretarias do Audiovisual (Sav/MInC) e de Políticas Culturais (SPC/MinC), em parceria com a Sociedade dos Amigos da Cinemateca.

O objetivo geral do projeto é estabelecer e manter uma rede de interlocução e intercâmbio entre diversos entes produtores e difusores do audiovisual da região nordeste. Tal rede propõe ampliar a atuação e cobertura do portal virtual de intercâmbio de conteúdo audiovisual estabelecido pelo Pontão de Cultura Rede Nordestina Audiovisual_RNA, abrangendo também o intercâmbio de conteúdo em modelo de IPTV (Internet Protocol Television), para os produtores de conteúdo independente, assim como para a rede de emissoras públicas de televisão das regiões norte e nordeste, através da implementação de um Laboratório de Testes Virtuais de Conteúdos Audiovisuais Interativos.

A Primeira Oficina do projeto será realizada,  nos dias 02,03 e 04 de março,  em João Pessoa, com a presença de todos os parceiros consorciados.

O projeto foi desenvolvido por professores, pesquisadores e técnicos administrativos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), através do Laboratório de Aplicações em Vídeo Digital (LAVID), em parceria com o NPD João Pessoa (PB), integrante do Programa Olhar Brasil (parceria: Universidade Federal da Paraíba com a Secretaria do Audiovisual / Ministério da Cultura; do Pontão de Cultura Rede Nordestina Audiovisual (RNA), administrado pela Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas, Seção Paraíba (ABD-PB).

O trabalho valoriza a relação interativa em rede, e tem a participação de projetos consorciados de 12 estados do norte e nordeste. Vários dos projetos consorciados são integrantes do Programa Olhar Brasil, relacionados a seguir: o NPD Fortaleza (CE), NPD Aracajú (SE), NPD Belém (PA), NPD Rio Branco (AC), NPD Teresina (PI); em outros estados as parcerias são respectivamente com a Associação Brasileira de Documentaristas, ABD em Salvador (BA); a ABD João Pessoa (PB).; TV Universitária / TV UFMA (MA); Fundação Aperipê de Sergipe (SE); Pontão de Cultura ONG Galeria Zoon de Fotografia em Natal (RN) e Ponto de Cultura/ONG Ideário de Maceió (AL).

Nos primeiros 12 meses de execução serão realizadas as seguintes  metas:
– Ampliação de 01 Laboratório Centro de Excelência.
– Ampliação de 01 Portal Regional de IPTV (VirtuaLabTV).
– Qualificação direta em encontro presenciais de pelo menos 24 técnicos do audiovisual em procedimentos interativos em 08 estados da região Nordeste (PB, CE, SE, PI, BA, AL, RN, MA) e 02 estados da região Norte (PA, AC).
– Capacitação em ferramenta virtual compartilhada e colaborativa de produção audiovisual interativa de pelo menos 72 técnicos do audiovisual envolvidos nos projetos consorciados nos estados atendidos.
– Produção de 11 programas televisivos de 26 minutos cada, aplicando procedimentos da interatividade através dos recursos da Televisão Digital e da IPTV, realizando recorrentes testes de exibição e usabilidade, gerando ao total 286 minutos de conteúdo a ser difundido através de redes locais e regionais de televisões públicas e de portal eletrônico de IPTV e WEB TV.

A linha metodológica utilizada, ampara-se na lógica das redes sociais como mecanismos capazes de expressar idéias políticas e econômicas inovadoras, fazendo uso das novas tecnologias e com novos valores culturais.

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ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que fazer com elas? VII capítulo

 

 No VII capítulo e último da série ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que  fazer com elas?  Maurice Capovilla, através da experiência incrível vivenciada no Acre, comprova que a esperança é a única que não morre.

 

 Por Maurice Capovilla

VII. A USINA DE ARTE DO ACRE

                          

                        A volta por cima

O Núcleo de Produção Digital da Usina de Arte João Donato devolveu a esperança perdida de se montar um curso livre e regular de cinema sem morte prematura.

  

A Usina de Arte João Donato nasce da visão avançada de um Secretário de Educação, na época o professor Binho Marques, hoje governador do Estado do Acre, ao implantar uma escola de arte em Rio Branco sem um projeto pedagógico antecipado.  O curioso dessa iniciativa foi que a arquitetura, resultado da restauração de antiga fabrica de processamento de castanha, indicava claramente espaços com a destinação certa para uma escola livre de arte, onde poderiam conviver o teatro, o cinema, a música, as artes plásticas, a dança… E o que  considerássemos  arte.

Durante dois anos, entre 2005 e 2006, reuniões mensais foram realizadas com as áreas envolvidas, com  o objetivo de formatar o projeto de uma escola híbrida,  capaz de abrigar as múltiplas linguagens das artes e  preencher um espaço importante de formação artística.  Inaugurada em 24 de abril de 2006, a Usina começa a funcionar regularmente em 2007, com os Núcleos de Teatro, Cinema e Música.

O Núcleo de Cinema começa a se estruturar em meados de 2005, quando a Secretaria do Audiovisual do MinC  lança o Edital do Programa Olhar Brasil, visando criar em 11 estados do país,  através de convênios, os Núcleos de Produção Digital, destinados a implantar centros de formação e produção audiovisual em estados periféricos ao eixo Rio/São Paulo, com repasses de recursos e equipamentos  em alta definição (HD),  na previsão das mudanças  tecnológicas que iriam se implantar na área das Comunicações.

O Acre apresentou um projeto de formação, denominado Curso de Cinema e Vídeo e foi contemplado com um NPD. O projeto obteve em seguida registro na Lei Rouanet, visando patrocínios através de benefícios fiscais e previa um Curso de 2 anos,  com  um enfoque definido.

O Curso se propôs como objetivo principal: “formar realizadores polivalentes, capazes de criar e produzir bens culturais nas áreas do cinema, do vídeo e da televisão, visando a formação integral do estudante para o exercício da criatividade e colocar em prática novos métodos de ensino das artes audiovisuais a partir da concepção de que o conhecimento do mundo moderno e globalizado se transmite através de linguagens, códigos  e tecnologias que tem como suporte a imagem e o som”.

A partir desses princípios germinou a ideia do Curso se implantar como uma oficina de pesquisa voltada para a prática e desenhada para expressar a realidade do Acre.  “O objetivo era abrir espaço para uma nova geração de artistas e realizadores, futuros profissionais ecléticos, capazes de manejar com estilo pessoal, as várias linguagens artísticas audiovisuais com domínio das técnicas que são as ferramentas de expressão do nosso tempo”.

A novidade do projeto é sua formatação. O Curso iniciou-se no segundo semestre de 2007 com 40 alunos e a configuração dos conteúdos programáticos foi baseada em trimestres temáticos, cinco no total. Os três primeiros foram dedicados ao documentário, à linguagem da televisão e à ficção. Os dois últimos foram diluídos entre produção de projetos curriculares e Oficinas de Especialização. As disciplinas foram distribuídas em áreas de abordagem teórica, técnica e prática e foram ministradas em oficinas semanais, regulares, progressivas, modulares e interativas, de modo que, seus conteúdos estivessem diretamente ligados aos temas dos projetos de filmes propostos. A partir da formação polivalente resultante de três trimestres completos, o objetivo do Curso era capacitar especialistas nas diversas áreas, consumadas de forma incompleta em Produção, Edição de Imagem, Fotografia em HD e Captação de Som.  As áreas de Roteiro, Cenografia, Figurinos, Edição em HD, Maquinaria, Elétrica e Direção em Cinema, Vídeo e Televisão serão configuradas para se realizar em 2010.

O curso, encerrado em dezembro de 2009, graduou 19 alunos, que realizaram trabalhos individuais e participaram de projetos coletivos. Ao todo foram realizadas 46 Oficinas de 20 horas semanais perfazendo o total de 920 horas aula e realizados 29 filmes com durações variadas em curta e média metragem. 

Como resultado desse processo, os alunos graduados e outros incorporados, fundaram a Samaúma Cinema e Vídeo, uma associação corporativa preparada para atuar em todas as áreas do audiovisual do Acre, da difusão à produção, da atuação como agentes culturais à formação básica no ensino de segundo grau. Um grupo atuante que dará impulso colateral às iniciativas  levadas a cabo pelas  políticas públicas federais,  estaduais e municipais  na área do audiovisual.

O projeto do NPD ainda contempla a Oficina da Imagem e do Som, um item de interação com a Usina de Arte e com outras áreas artísticas da comunidade cultural, um espaço livre de criação aberto às  artes cênicas, plásticas e musicais  e voltado à produção independente local,  com o objetivo de funcionar como uma usina de ideias e linguagens que se interagem para criar e produzir projetos cênicos, musicais, filmes, vídeos, instalações, programas de rádio e televisão, abastecer os alunos  e os artistas em geral  de métodos e processos de trabalho e suprir suas necessidades de informação e pesquisa. Participarão da Oficina alunos, artistas, professores e realizadores locais integrados na ação de produzir bens simbólicos de reflexão da realidade cultural acreana tendo como epicentro a Imagem e o Som.

Há uma pergunta que se faz até hoje: para que servem as escolas de cinema no Brasil?  Antes respondia prontamente: servem para aglutinar jovens com um desejo imenso de fazer cinema… Agora posso completar:  é na escola que alunos e professores aprendem a aprender… A fazer e a amar o cinema…  Foi o que aconteceu no Acre.  A transformação de jovens com experiência e formação diversas, desconhecidos entre si, selecionados mais pela sensibilidade do que pela informação, que se integram em dois anos e meio no processo de fazer filmes e se formam como verdadeiros cineastas,  capazes de refletir a visão que se tem do Acre para num futuro próximo apresentá-la ao resto do país.

  É para isso que serve uma escola. 

Editais com inscrições abertas

Segue abaixo uma série de editais do setor audiovisual  que estão com inscrições abertas.
 
 
  1. Edital Longa Metragem de Ficção Para Roteiristas Profissionais

     

     Inscrições até 18 de março

  2. Edital Longa Metragem de Ficção para Roteiristas Estreantes

     

     Inscrições até 18 de março

  3. Edital Longa Metragem de Ficção ou Animação com Temática Infantil

     

     Inscrições até 18 de março

  4. Edital Longa Metragem de Ficção de Baixo Orçamento

     

     Inscrições até 18 de março

  5. Edital Curta Metragem de Ficção ou Documentário

     

     Inscrições até 18 de março

  6. Fundo Setorial do Audiovisual – Prodav 01/2009

     

     Inscrições prorrogadas até 9 de abril

  7. Fundo Setorial do Audiovisual – Prodecine 01/2009

     

     Inscrições prorrogadas até 5 de março

  8. Fundo Setorial do Audiovisual – Prodecine 02/2009

     

    Inscrições prorrogadas até 5 de março

  9. Fundo Setorial do Audiovisual – Prodecine 03/2009

     

     Inscrições prorrogadas até 5 de março

  10. Fundo Ibermedia 2010 – audiovisual

     

     Inscrições até 15 de fevereiro
    __________________________________
    Unidade Técnica – Olhar Brasil

    Visite o blog:
    http://olharbrasil.cultura.gov.br

O PROGRAMA ANIMATV ESTÁ NA INTERNET!

De 10 a 28 de fevereiro, assista e vote nos pilotos que mais gostar.

A partir de 10 de fevereiro, os episódios-piloto produzidos na Primeira Etapa do Programa ANIMATV estarão disponíveis no site www.tvcultura.com.br/animatv. Até o dia 28 de fevereiro, os internautas poderão assistir 17 produções nacionais de altíssima qualidade e votar nas que mais gostar. Os dois pilotos mais votados receberão o Troféu Internauta, o prêmio de público criado pelo Programa ANIMATV.

Os vencedores do Troféu Internauta serão conhecidos no dia 5 de março, juntamente com o anúncio dos dois vencedores que irão para a Segunda Etapa do Programa ANIMATV.

O Programa ANIMATV é um programa da Secretaria do Audiovisual e da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil, Fundação Padre Anchieta – TV Cultura, Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais – ABEPEC, com o apoio institucional da Associação Brasileira de Cinema de Animação – ABCA, realizado no âmbito do Programa Nacional de Estímulo à Parceria entre a Produção Independente e a Televisão instituído pelo Ministério da Cultura.

Mais informações sobre o Programa ANIMATV no site: animatv.cultura.gov.br

ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que fazer com elas? VI capítulo

 No VI capítulo, Maurice Capovilla, nos apresenta uma experiência fantástica que estava dando certo e que infelizmente veio a ser interrompida.

 

 Por Maurice Capovilla

VI.  O DRAGÃO DO MAR

                                          

                       Nostalgia sepultada

                        1996-99

                       O Dragão do Mar foi a última tentativa de implantar no Nordeste uma escola inspirada nas ideias de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. O Brasil, mais uma vez, perdeu mais um bonde na história.                                        

 O Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual do Ceará durou, conforme foi inicialmente concebido, três anos. Tempo mais do que suficiente para testar algumas ideias que fomos recolhendo durante os últimos trinta e tantos anos. Não foi um produto acabado nem chegou a se consolidar, pois estava em processo de ajuste e aperfeiçoamento.

O Dragão surge, num primeiro momento, como um agente transformador de uma realidade regional e com a finalidade de preparar com eficiência os criadores de um mundo novo e expandir para muitos, o conhecimento das artes, das técnicas e dos ofícios indispensáveis à vida humana no ano 2.000.

Para levar avante essa utópica meta, de conformidade com a vontade política do então Secretário de Cultura Paulo Linhares, definiu-se o Dragão como uma “escola múltipla de artes”, inserida no contexto geopolítico de um mundo bipartido entre globalismos e regionalismos, entre sistemas transnacionais de poder militar, político e econômico e regimes de países e estados periféricos que lutam para preservar a nacionalidade, a cultura e a identidade de seus povos. Um mundo cuja marca registrada de sobrevivência será a competência e a conformidade das raízes históricas e culturais com os meios mais sofisticados de informação e comunicação.

Implanta-se então a escola a partir de um Centro de Dramaturgia, sob a direção de Orlando Senna, com duração prevista de dois anos enquanto formatam-se os projetos de um Centro de Estudos Básicos e dos Centros de Produção Audiovisual e de Design nos moldes da qualificação massiva e ao mesmo tempo especializada, para formar o técnico e o artista, num quadro estatístico de resultados relevantes.

No âmbito do Centro de Estudos Básicos foram oferecidas, em três anos, 19.500 vagas, realizados 185 cursos de formação, atendidos 40 municípios, certificados 6.500 alunos e capacitados 1.500 cidadãos de todas as classes sociais e que passam a exercer funções técnicas e artísticas nas diversas áreas da indústria cultural do Ceará.

Paralelamente a isso, os Centros de Dramaturgia, Produção Audiovisual e Design, com cursos de dois anos, formaram dramaturgos, roteiristas, diretores de teatro, diretores de cinema e televisão, atores, atrizes, coreógrafos, dançarinos, designers, cenógrafos, figurinistas, artistas plásticos, decoradores, fotógrafos, diretores de som, editores de cinema e televisão, produtores, animadores culturais, enfim, uma gama de profissionais que atuam nas áreas culturais do Ceará.

Essa escola revolucionária que não existia na realidade do Brasil tomou a forma cromática e multifacetada do corpo mítico de um dragão criado pelo artista plástico cearense Chico da Silva e que se tornou a síntese visual, ideológica e estética do Instituto Dragão do Mar.

Uma escola cujas disciplinas, não importa a área que pertençam, são consideradas expressões culturais encaradas na perspectiva de um diálogo permanente de cruzamento de experiências teóricas, técnicas, estéticas e de difusão.

Nesse sentido o Dragão investiu na sensibilidade do mestre que é ao mesmo tempo professor e artista, único visionário capaz de colar os cacos do grande vaso da sabedoria onde sempre estiveram presentes a poesia, dramaturgia, o teatro, a mímica, a música, a dança, as artes visuais contemporâneas, a fotografia, o cinema, o vídeo e a televisão, as novas tecnologias da imagem e do som e a cantoria do sertão, o bumba meu boi, a tradição oral e artesanal e todas as linguagens que formam a grande arte do nosso povo.

No conceito pedagógico do Dragão, a palavra chave é a “transdisciplinaridade”, que poderíamos traduzir por antilinearidade na troca de informação, ou mais simplesmente, “multidisciplinaridade”, mixagem, hibridismo e para ser anti-acadêmico, impureza na apropriação da técnica e da produção de obras de arte emancipadas e distanciadas de qualquer classificação histórica tradicional.

Para se chegar a esse estágio, foi necessário que as disciplinas se misturassem ao sabor das preferências e necessidades de alunos e professores, a partir de um projeto conceitual maduro e aprofundado e que teve como norma a liberdade de escolha de variadas formas do ver e do saber fazer, acompanhando e talvez, antecipando a evolução possível da expressão artística do próximo século.

Nesse espaço indivisível os estudantes produzem suas obras em dimensão real, prontas para a difusão, com a assistência de artistas e professores de renome nacional e internacional.

Por sua vez, os mestres artistas das diferentes disciplinas, também se obrigam a realizar, com os meios técnicos disponíveis, obras com a assistência dos alunos, na confluência de um intercâmbio antagônico, talvez competitivo, porém dinâmico na relação criadora entre as gerações.

A visualização do Dragão, nos termos propostos, é um chão de fábrica, ou mais precisamente, um ateliê, um estúdio, um palco, um laboratório, uma oficina, um centro de computação gráfica, enfim, o espaço físico do trabalho necessário para a configuração prática do   espaço intelectual  e virtual de pesquisa e busca das fontes da teoria e do saber.

Uma escola dessa forma concebida pressupõe a interação, em nível pedagógico, com o que se faz de arte no Brasil e no mundo, procura intercâmbio com alunos e professores de outros estados e países sem perder de vista os alicerces culturais e sociais sobre os quais está plantada.

Antes de tudo, o Dragão do Mar, homenagem ao herói libertário da escravidão no Brasil, foi uma experiência cearense, no momento da passagem do século onde se realiza a tese de escolas do primeiro e do terceiro mundo reunidas numa só, a partir da concepção de que é possível oferecer a qualquer indivíduo, não importa sua origem, classe social ou escolaridade, os instrumentos técnicos, estéticos e teóricos adequados para que sua expressão o qualifique como um cidadão. Enfim, uma oferta de aprendizado das artes que constituem meios fundamentais de comunicação entre os homens.

O Dragão do Mar, pela dimensão que assumiu, nesses três anos de atuação, cumpriu em grande parte as metas previstas em sua criação. Mobilizou tanto a sociedade de uma forma geral, quanto à cultura cearense de maneira específica, atuou sobre milhares de jovens ávidos de conhecimento e deixou com certeza a sua marca gravada na mente de quem passou sem querer, alguma vez, na frente de um evento qualquer, seja um filme, um quadro, uma peça de teatro, uma rede artesanal, uma moringa de barro, um boi de presépio, um verso rimado, um mamulengo esquisito, enfim, alguma coisas original e bem feita, que a partir do seu criador passou a ser um objeto com valor, para ser visto e assimilado, vendido e comprado, cumprindo, portanto sua missão de criar condições de trabalho e mercado para o artista.

Centro de debate, laboratório de pesquisa, oficina de trabalho, ponto de referência do ensino democrático da arte e da cultura no Brasil, o Dragão do Mar foi e deveria continuar sendo um processo de livre e permanente criação aberto aos cearenses e a todos os brasileiros.

ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que fazer com elas? V capítulo

 No V capítulo, Maurice Capovilla, nos revela como se deu o projeto mais ambicioso de formação cinematográfica que se implantou na América Latina e nos países do Terceiro Mundo.

 

 Por Maurice Capovilla

V.  A “ESCUELA” DE CUBA               

                         Purgatório dos deuses

                        1989/90

                        Com 83 alunos latino-americanos em minhas mãos, que nunca tinham visto uma câmera, escrito um roteiro ou dirigido uma cena qualquer, coloquei  no ar, em três meses, seis horas de programação da TV DO TERCEIRO MUNDO. Depois disso cheguei à conclusão de que o pior inimigo do  criador  é o medo de criar.                                     

           

Trinta anos depois de Santa Fé, em dezembro de 1986, Fernando Birri volta a entrar em cena e lança, de Cuba,  uma arrojada proposta de ensino com a criação da Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños, aberta para a América Latina, o Caribe, a África e a Ásia.

 Por trás desse   utópico empreendimento está o Comitê de Cineastas da América Latina e a Fundação do Novo Cinema Latino-americano, presidida por Gabriel Garcia Marques.

Antes de tudo, a “Escuela”, como diz a ata de sua fundação, “é o resultado de três décadas de necessidades, experiências, reflexões, críticas e auto-críticas do Novo Cinema Latino-americano”, quer dizer, é uma ideia amadurecida pelo intercâmbio de uma geração de cineastas que lutou pela emancipação política de seus países. Ela foi plantada na Argentina com ramificações explícitas no Brasil, Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela e naturalmente Cuba.

Sob a direção de Birri, a  escola se implanta com uma proposta de ensino em três níveis: o Ensino Básico e Regular, as Oficinas Experimentais e  os Diálogos de Altos Estudos.

O curso regular previsto inicialmente é de três anos,  com 80 alunos em média. Os selecionados de cada país  podem ter entre vinte e trinta anos,  certificado de  bacharel e domínio do idioma espanhol. O aluno vai participar de um projeto coletivo, integrado a uma equipe de trabalho e desenvolver uma obra pessoal. Durante dois anos o aluno tem uma formação polivalente e no último escolhe uma especialização em Direção de Cinema e Televisão, Fotografia, Som, Montagem e Produção.

A partir de 1991, o Curso sob a direção de Orlando Senna, passa a ter 2 anos e a idade mínima decresce. Uma análise rápida do Plano de Estudos da escola desse período de 90-92, que corresponde ao princípio das mudanças do projeto original, nos dá a ideia de um ensino que pretendia, com justificado imediatismo, capacitar com rapidez para inserir o formando com habilidades técnicas e competências gerais,  na indústria do seu país de origem. Ao fundir a polivalência com a especialização, a escola pretendia ampliar as chances do trabalho profissional. O que está em jogo é uma posição pragmática e política que tinha como meta formar quadros emergentes e urgentes para transformar a indústria audiovisual da América Latina. Os resultados desse processo podem ser constatados nas décadas seguintes com a expansão do Novo Cinema Latino-americano.

No entanto, na ânsia natural de montar uma grade abrangente de conteúdos, os Planos de Estudos que se sucedem partem sempre da premissa de estabelecer limites precisos de apreensão dos conhecimentos teóricos e práticos, como se fizessem parte de dois mundos separados por uma fina membrana invisível. O resultado dessa postura é a tendência das matérias teóricas se darem sem nenhuma interação com as matérias práticas ou técnicas, porque não visam um objetivo comum. Montados como um quebra-cabeça, os planos de estudos fornecem informações precisas, corretas, atualizadas, em muitos casos verdadeiros modelos de classificação e síntese conceitual, programas dignos de aplicação universal, porém desconectadas entre si, as disciplinas se transformam em trilhas enganosas de um labirinto formal e especializado.

Essa dispersão programática é explicável pela composição docente de uma escola internacional que absorve as mais variadas experiências pedagógicas e culturais. Nesse sentido torna-se difícil organizar um corpo de disciplinas que possam interagir e até mesmo se fundir num projeto comum de alunos e professores. 

No organograma ainda se oferecem  as Oficinas Experimentais, que são concebidas para acolher profissionais que não passaram por uma formação escolástica e necessitam preencher determinadas lacunas em seus conhecimentos.

Por fim, são previstos os Diálogos,  encontros dos grandes realizadores, um intercâmbio solidário de experiências marcantes de cineastas e criadores. Esta estrutura imponente e gigantesca como nunca se viu foi presidida por algumas ideias que Birri trouxe de sua longa e sofrida trajetória criadora. Em primeiro lugar ele afirma que não acredita nas escolas de arte que se iludem com a transmissão neutra de uma técnica. O ensino implica, por parte de quem transmite e de quem assimila, uma visão de mundo, um juízo de valor, um atuar sobre o mundo, em última análise, uma escolha.

E essa escolha é o engajamento por um cinema do Terceiro Mundo, uma maneira especial de encarar a realidade e incorporar, sem preconceitos, os meios disponíveis. O cinema e a televisão podem ser vistos pelo prisma de uma formação  polivalente que vai resultar no telecineasta.

Contra todos os estereótipos a Escola está atenta para não cair no populismo, no maniqueísmo, no sectarismo, no dogmatismo, na burocracia, na ideologização retórica que é contrária a uma ideologia vital e operante. Enfim, fica claro, desde o primeiro momento que a Escola, montada com blocos de cimento pré-fabricados, não trabalharia com ideias pré-fabricadas. Ao contrário, ela sempre funcionou como uma usina de ideias criadoras, um espaço para o exercício das utopias, um ponto de referência mundial do ensino do audiovisual.   

Não há dúvida de que a Escola de Cuba é o projeto de formação cinematográfica mais ambicioso que se implantou na América Latina e nos países do Terceiro Mundo.

ESCOLAS DE CINEMA E ARTE – O que fazer com elas? IV capítulo

 No IV capítulo, Maurice Capovilla, nos conta as peripécias de implantar uma escola de cinema.

 

Por Maurice Capovilla

IV.  A CINEMATECA E A ECA DA USP  

  

Exemplos regeneradores

1968/73

 

Um belo dia reuni os alunos e disse: vamos todos juntos fazer um filme. Esta é que vai ser a verdadeira aula. Vendi meu carro, reuni meus amigos Hamilton de Almeida, Flávio Império, Cláudio Portiolli, Antonio Meliande , Jorge Bodanski , peguei a Arriflex da escola e junto com eles fizemos o filme. Assim é que saiu o Profeta da Fome.

 

Até hoje não se avaliou, com muita precisão, o papel que a Cinemateca Brasileira exerceu, por força de sua atividade de difusão, na formação cultural cinematográfica nos anos 60, mas a verdade é que funcionou involuntariamente como uma escola informal de cinema. Durante os últimos anos da década de 50 até 64, a Cinemateca fundou dezenas de cineclubes em faculdades e entidades culturais de todo o país, preparando e de certa forma antecipando a formação das platéias estudantis que iriam acompanhar a trajetória do Cinema Novo.

Os cineclubes recebiam uma programação e um conferencista que seguia em geral os métodos de análise de Paulo Emílio.  Os debates com os estudantes, verdadeiras aulas públicas, faria surgir uma consciência crítica da realidade do país. Não era por acaso que os dirigentes das UEEs, UME e da UNE eram cineclubistas, pois  dentro dos diretórios acadêmicos é que se formavam as vocações cinematográficas, musicais e artísticas.

Além da sua função de prospecção e preservação de filmes, a Cinemateca Brasileira, sob direção do Conservador Paulo Emílio e do Diretor Administrativo Rudá de Andrade, iria cumprir ainda um papel educativo fundamental, ao trazer para o Brasil e organizar  em São Paulo durante as Bienais de Artes Plásticas e por extensão no Rio de Janeiro, através do MAM  e na Bahia, as mostras mais completas  do cinema mundial.

Os Festivais do Cinema Italiano, Russo e Soviético, Francês,  Expressionismo Alemão, Novo Cinema Polonês, e a Comédia Americana foram exibidos,  com catálogos, conferências, debates e ensaios na imprensa. No período de seis anos, grandes platéias tiveram a oportunidade de tomar contato com uma seleção  do que havia de mais importante da produção cinematográfica mundial  e o que estava se fazendo no momento, de Lumière à Nouvelle Vague, de Eisenstein a Rossellini,  de forma que essa visão global e abrangente se tornou, por um lado, fonte de influências e por outro, a principal  formação cultural cinematográfica de toda uma  geração do Cinema Novo.

Durante os anos seguintes, a SAC, Sociedade dos Amigos da Cinemateca, dentro do Cine Coral e depois no Belas Artes, continuou a desempenhar essa função.

 

Finalmente em 1967, Paulo Emílio Salles Gomes consegue convencer a Reitoria da Universidade de São Paulo para inserir o cinema  na nova Escola que se criava, que seria inicialmente de Comunicações e posteriormente  de Artes. E o grupo da Cinemateca  formata o currículo do  Departamento de Cinema, com um conjunto de cursos,  ministrado por um corpo docente de pesquisadores, críticos, técnicos e cineastas.

Lembro-me das primeiras discussões a respeito do que seria uma grade disciplinar de uma escola de artes diante de um Conselho Universitário composto de doutores para os quais o cinema era subversivo quando brasileiro ou mero entretenimento quando estrangeiro.  Não conseguiam entender que se tratava de uma linguagem que se podia ensinar na Universidade. Graças às intervenções de Sábato Magaldi, Antônio Cândido de Mello e Souza, Décio de Almeida Prado, entre outros, conseguiu-se implantar um currículo com matérias teóricas e técnicas, tais como, História do Cinema, Análise Crítica, Produção, Fotografia e Prática de Realização Cinematográfica, que seriam ministradas, no primeiro ano, por Paulo Emílio,  Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet, Roberto Santos e por mim.

A ECA nasce com a marca  registrada de Paulo Emílio Salles Gomes e não é por acaso que gerou pensamentos críticos cinematográficos importantes  com Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet.

De certa forma o plano de estudos que se monta é proveniente da experiência inacabada do ICA, mas com avanços consideráveis. Estão presentes as duas faces pedagógicas que irão nortear o objetivo comum do Curso nesse primeiro período.  A teoria, tendo como base a análise crítica do filme e a história do cinema, e a prática com as disciplinas básicas de Realização Cinematográfica, da qual emanariam naturalmente as práticas de roteiro, produção e as técnicas de fotografia, som e edição.

Pouca coisa pode-se dizer desse período negro da história logo após o Ato 5, com aulas cerceadas pela fiscalização de bedéis a soldo da repressão  e regras que intimidavam os alunos. A segunda turma de 69 purgava uma depressão tão grande que inventei um programa de terapia de grupo, tendo como convidada uma psicóloga discípula de Jacob Moreno, recém chegada da França e que “ministrou” gratuitamente, durante algumas noites, um curso especial de  psicodrama  para reavivar o ânimo da turma. Descoberta a nossa farsa, graças às denuncias anônimas, o “curso” terminou.

O grande salto qualitativo do ponto de vista da atividade prática da Escola deu-se em 69, quando conseguimos importar uma câmera Arriflex II–C, 35mm., completa, com todos os formatos das lentes Zeiss. Os alunos estrearam a câmera logo em seguida na produção de dois documentários de curta metragem, Ensino Vocacional e O Pão Nosso de Cada Dia.  Em seguida realizamos a fusão de alunos com profissionais para realizar o filme escola O Profeta da Fome, na linha já seguida por Fernando Birri com Los Inundados. Essa empreitada única, na qual se fundiram experiências e aprendizagens entre alunos e profissionais, culminou tempos mais tarde, na proibição da Reitoria de alunos e professores retirarem equipamentos cinematográficos do Campus Universitário. Em 73 senti que estava na hora de procurar novos caminhos.