AOS ALUNOS D0 CURSO DE CINEMA E VÍDEO…

Passo a vocês a informação da crise em que se encontra a VILA DAS ARTES, um Núcleo de Produção Digital como o nosso, criado na mesma época e que sofre de graves problemas desde o ano passado.  Os alunos organizados foram responsáveis pela permanencia do curso, ameaçado agora  pelas precárias condições de funcionamento da Escola. Segue abaixo matéria publicada em jornal local.

 
 
  Vida & Arte – JORNAL O POVO
PROJETOs

Vila sem casas

Pedro Rocha
da Redação

O projeto vila das artes chega a mais um impasse ás vésperas das eleições municipais. Beatriz Furtado, representante da UFC, e Gláucia Soares, diretora da escola de audiovisual, se retiraram depois da afirmação da Funcet de que ainda não há dinheiro para concluir as obras. 

(Arte de Carlus Campos sobre foto de Kleber Gonlçalves / concepção gráfica Amaur�cio Cortez)
(Arte de Carlus Campos sobre foto de Kleber Gonlçalves / concepção gráfica Amaurício Cortez)

Na última quinta, após a aula, os estudantes receberam de Beatriz Furtado e Gláucia Soares a notícia de que ambas se retiraram da Vila das Artes. As duas são pessoas importantes nas atividades do projeto, inconcluso. Beatriz é uma das idealizadoras e então presidenta da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo, no final de 2006, quando a Vila foi lançada oficialmente. O Ministro Gilberto Gil também estava na cerimônia. Desde 2007, como professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, era representante da Universidade na Vila, também projeto de extensão da UFC.Gláucia está também no projeto desde o início. Ex-presidenta da Associação Cearense de Cinema e Vídeo, foi coordenadora de audiovisual da Funcet até assumir a diretoria da Escola deste a abertura. Gláucia já pretendia se retirar do cargo por motivos pessoais, mas a saida foi decidida pela informação dada a elas por Silvia Bessa, coordenadora da Vila das Artes, em uma reunião esta semana. Silvia disse às duas que a Prefeitura garante o recurso para a manutenção das Escolas de Audio Visual e Dança, mas que o dinheiro para a conclusão da reforma e instalação efetiva do prédio depende das tentativas de captação junto a empresas estatais e privadas.

A notícia foi recebida com certo espanto, mas também como previsível pelos alunos da escola. Há três semanas assistem aula, à revelia da Funcet, na futura sala aberta de dança de um dos três prédios que integram o projeto Vila das Artes. O terceiro semestre da Escola deveria estar correndo na Casa Amarela, mas os estudantes, em protesto, transferiram as tardes de curso para o prédio do ex-Sine/IDT, que deveria ter sido entregue reformado no início de 2007 e ainda não está pronto.

Nos primeiros dias de aula, os alunos ficaram entre as paredes brancas da casa já pintada, mas a poeira tangeu inflamando gargantas. Saíram. Agora é sobre o tablado fora da casa que assistem aula. Sem cadeiras, apoiados na parede ou se equibilibrando de alguma forma, alongando as costas aqui e ali pra aliviar certo incômodo, ouvem o professor falar sobre a feitura de projetos de documentário. Sem um projeto, nada de dinheiro público ou privado para as produções. Nada de captação de recursos.

Uma das principais razões para a saíra das duas foi justamente a não captação pela Funcet de recursos para a conclusão das obras. Depois de sucessivos descumprimentos de prazo, desde 2006, quando o projeto foi lançado, a sensação dos alunos com a notícia é uma mistura de desânimo e convicção para continuar as ações de ocupação da casa.

Em entrevista ao O POVO, na manhã de ontem, a coordenadora da Vila das Artes, Sílvia Bessa, afirmou que a parcela atrasada da Prefeitura, destinada à manutenção da Escola de Audiovisual por um ano, já está empenhada e a previsão é de que seja liberada em curto prazo. O valor é de R$ 330 mil. Segundo Sílvia, R$ 3 milhões da Prefeitura já foram investidos na Vila, que hoje funciona com vários projetos de formação em cinema e dança, além do Núcleo de Produção Digital, montado com recursos do Ministério da Cultura e mantido pela Funcet.

A notícia da saída das duas vem depois de um histórico de prazos prometidos e seguidamente descumpridos para a entrega do primeiro bloco da Vila. O último, três de março passado, data prevista para o recomeço das aulas, paralisadas em novembro sob a justificativa de que os esforços seriam concentrados nas negociações para a captação de recursos.

O prédio está todo pintado e a impressão é de que falta pouco para a entrega. Mas para por em funcinamento do espaço, faltam equipamentos essenciais, como, por exeplo, o sistema de ar-condicionado, o sistema de rede para integrar os computador e um no-break para segurar a energia de toda a casa, que abrigaria, além das Escolas de Audiovisual e Dança, um Centro de Artes Visuais e um café. Um recurso de R$ 200 mil captado com o Banco do Nordeste está depositado e aguarda o resultado das licitações dos equipamentos. Mesmo assim, mais recursos são necessários para a conclusão da obra. O cenário se agrava pelo iminente período eleitoral e pelo curto prazo para o vencimento do projeto de captação de recursos da Escola de Audiovisual aprovado na Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, que vence no fim de junho.

O terceiro semestre começou em março com o que restava dos recursos repassados pelo Governo do Estado do Ceará, ainda concernentes ao segundo semestre do ano passado. A captação de recursos fora os investimentos da Prefeitura já estava prevista no projeto. Segundo Beatriz Furtado, haviam negociações encaminhadas com estatais, articuladas pelo Banco do Nordeste. “Duas vezes houve reuniões, organizadas no BNB, com todas as estatais aqui em Fortaleza. Foram apresentados esses projetos. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tava muitísso interessado no projeto, que incluía a recuperação do Teatro São José (próximo ao Dragão do Mar). A medida que essa mobilização e força de negociação deixa de existir…de onde vem, de onde virão os recursos?”, questionou ainda na quinta, em uma reunião com o repórter na sala de edição do Núcleo de Produção Independente, logo após o anúncio aos alunos.

Além de negociações avançadas com estatais, Beatriz afirma que estavam garantidos R$ 600 mil reais, depositado na Regional 2. Quando ela saiu da Funcet era previsto que as aulas das escolas começassem já com o primeiro bloco pronto. “Quando eu sai da Funcet, havia o recurso garantido de 600 mil reais, que correspondia ao valor que já estava na Regional 2, negociado com o secretário José Meneleu (secretário de planejamento). Era o valor da obra dessa casa. Ocorre que esse dinheiro, por razões diversas, no final do ano, foi retirado da Regional e foi usado pra outras necessidades.”

 


 

ATO DE SOLIDARIEDADE

Prezados alunos,

Tomei conhecimento dos fatos que envolvem a Vila das Artes e a Cultura em Fortaleza e  fico muito triste pela forma como se desdobra, de  maneira cada vez mais pobre, inócua e irresponsável,  a política cultural do Ceará, que primou pela excelência na era Paulo Linhares. O desaprendizado que se constata é constrangedor para quem viveu naquela última década de 90, o apogeu de um projeto de criação e transformação cultural reconhecido nacionalmente, até que forças da mediocridade tomassem conta do espaço. Esse processo de descontrução das raízes da cultura é um fenômeno nacional, para não dizer, global, refletido com mais clareza nas experiências regionais. Dos anos 60 para cá,  caminhamos para trás, pela carência de um projeto consistente de cultura, apesar dos esforços do Ministro Gil. Duas décadas de ditadura criaram um vácuo político  que abriu brechas nas nosssa fronteiras por onde penetrou, sem maiores obstáculos,  a informação de uma cultura poderosa  e dominante. Falo específicamente do cinema e da televisão. Não se deve tocar na palavra proteção. barreira alfandegária, obrigatoriedade de difusão da obra artistica nacional, para não cairmos na redoma de cristal da  China de Mao. Só precisamos de igualdade de condições e mercado livre para todos. É preciso constatar que a comunicação de massa que nos penetra pelos poros, invade as redes de difusão e condiciona o público a uma única visão de mundo inibe naturalmente a contrapartida necessária, a resposta do artista brasileiro para que a oferta seja múltipla. Precisamos de um verdadeiro intercâmbio onde possamos acessar a riqueza cultural do mundo, sem obrigatoriedade de escolha. A WEB é o caminho de liberdade de conhecimento e investigação que se abre hoje para o jovem,  mas  como faca de dois gumes o trasporta também para um mundo sem fronteiras, desconhecido e multinacional. Temos que assumir as transformações históricas, onde entra em pauta a tecnologia, como um bem social, econômico e cultural. Temos que nos apropriar dos meios tecnológicos, como sempre fizemos, para desenvolver a nossa linguagem, que nos deu identidade e notoriedade. E temos que ter a oportunidade de trabalhar na pesquisa e no desenvolvimento das novas linguagens audiovisuais para que haja a contrapartida necessária, o embate das idéias e o confronto estético, que nos torna originais e reconhecíveis. E esse trabalho só pode ser feito pelos jovens de todo o país que sonham em fazer cinema.

Para que isso se dê é indispendável a permanência  e as condições necessárias para a existência  da Vila das Artes  no Ceará e tantas Vila das Artes necessárias em todo o país. Como coordenador de um projeto semelhante, o Núcleo de Produção Digital da Usina de Arte João Donato do Acre,  me sinto no dever de prestar solidariedade aos alunos que demonstram a força do espírito imbatível da juventude que quer aprender, contra a corrente dos administradores alienados e  ineptos burocratas de carreira.

Rio de Janeiro, 23/ 5/2008 – Maurice Capovilla.

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. fred benevides
    maio 26, 2008 @ 00:53:25

    olá pessoal

    sou aluno da escola de audiovisual de fortaleza e fiquei feliz de ver o apoio manifesto de Capovilla (segundo texto fantástico que nos é endereçado, obrigado de novo) e de vocês da usina de olhares. O certo é que realmente tem sido uma batalha interminável tentar fazer com que esse curso continue em Fortaleza, pois o aumento (quantitativo e principalmente qualitativo) é considerável. Apesar de tudo, é incrívelperceber que existem pessoas dentro e fora da cidade que acreditam na possibilidade de fazer cinema como maneira de compartilhar e aplacar a solidão do coração – isso vem nos dando uma liga enorme como grupo, que só cresce a cada dia. Vamos manter contato. obrigado e abraço.

    fred

    fredbenevides@yahoo.com.br

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  2. ythallo
    maio 26, 2008 @ 15:40:55

    Capovilla, é sempre muito importante pra nós (alunos d escola de audiovisual aqui de Fortaleza), termos o apoio de pessoas que já enfrentaram problemas não menos importantes que o nosso e num âmbito certamente muito maior. Estamos vivendo emperrados nessa burocracia e enganação aqui desde 2006 e nunca desistimos. É, felizmente, por conta desta luta que somos um grupo mais unido do que nunca. Vamos em frente sempre. Um abraço!

    Ythallo Rodrigues – Fortaleza 26/05/2008

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  3. victor de melo
    maio 26, 2008 @ 19:24:26

    Sou aluno da escola de audiovisual de fortaleza e estou muito cansado com tudo isso que está acontecendo aqui.
    O direito de fazer arte e de ter o cinema como arma pra que eu possa questionar e pra que eu possa viver está sendo retirado de mim.
    Não consigo escrever com precisão o que sinto, pois escolhi o audiovisual pra poder me expressar e assim cumprir o meu dever aqui neste mundo “real”.
    Obrigado pela sua solidariedade e tenho certeza que todos os alunos agradecem seu ato.
    Sei que ser sencível como você está sendo não faz parte do objetivo desses burocratas.

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  4. Maíra Bosi
    maio 27, 2008 @ 00:30:51

    Como aluna da Escola de Audiovisual (proeto que faz parte da Vila das Artes) eu só tenho a agradecer todo o apoio que o Capovilla tem nos dado no último ano.
    É revoltante ser órfã de um projeto tão ambicioso e tão promissor como esse. A gestão municipal deu um passo gigante ao lança-lo mas, depois, alimentou-o com esmolas conseguidas a muito custo. Estamos lançados às promessas vãs e à falta de seriedade. Tristeza. Triste que a arte em nosso país dependa de políticas públicas praticamente inexistentes e que, quando agem (em sua maior parte), é de maneira pontual e mínima.
    Se meter a fazer cinema no Brasil hoje requer uma criatividade corajosa.
    Muito lúcido o texto de Capovilla, muito bom poder lê-lo.

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  5. fred benevides
    maio 28, 2008 @ 10:53:26

    corrigindo a mensagem: o aumento da produção de audiovisual de qualidade na cidade.

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